Ela
acordou antes mesmo de tocar o velho despertador que ganhara de seu pai quando
ainda tinha 14 anos de idade. Tomou banho. Prendeu os cabelos pretos em um rabo
de cavalo. Passou um batom rosa bem discreto e saiu apressada. Era o dia da tão
esperada entrevista para preencher a vaga de atendente na maior e melhor
cafeteria de Campo Largo.
-
Filha, coma ao menos um biscoito caramelizado, disse sua mãe alcançando-a já
saindo no portão. Nem sequer o café com leite morninho que te preparei você
tomou, Não pode sair assim de barriga vazia!
-
Ah! Mamãe a senhora sempre tão cuidadosa com a gente. Peça a Deus por mim. Eu
te amo muito.
- Vá
com Deus filha e creia, isto é só o começo, você ainda será uma Barista
reconhecida.
-
Amém mamãe. Amém!
A
cafeteria ficava no Centro e em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. O
espaço era amplo, arborizado e de uma decoração rústica impecável. Já na
entrada podia se perceber o motivo de ser um ambiente tão famoso e freqüentado
por tanta gente e quase que um dos pontos turísticos mais apreciados na região.
O cheiro inigualável de café fresco dava a sensação de que o grão havia sido
colhido e socado e moído naquela hora. Era um cheiro acolhedor, vibrante,
energético, convidando para acomodar-se e desfrutá-lo.
-
Você também veio para a entrevista?
- O
quê?! Ah! Sim, desculpe-me, falou no mesmo instante a bela Cirlei que, estava
absorta em suas lembranças de adolescente quando se sentava próxima ao fogão de
lenha para ouvir seu avô contar as histórias sobre as colheitas na lavoura de
café de seu bisavô, enquanto sua avó terminava de fritar os bolinhos de chuva para
comerem tomando o café fresquinho que acabara de passar no “antigo” coador de
pano.
Você
pode aguardar ali junto com os demais candidatos, falou o gerente da cafeteria
apontando para o corredor onde havia um sofá em madeira e almofadas coloridas
que harmonizavam ainda mais aquele ambiente.
As
horas iam passando e Cirlei já estava impaciente, todos já haviam sido
entrevistados e somente a ela e mais dois rapazes foram pedidos para
aguardarem.
-Preciso
me acalmar. Essa minha ansiedade está notória e pode atrapalhar tudo. Pensou
dando logo um jeito de distrair-se.
Levantou
e começou a “visitar” detalhadamente cada espaço da Cafeteria. Estava cheia.
Nenhuma mesa vazia. Tinham jovens uniformizados, casais de namorados, grupo de
amigas, mães com os filhos, alguns solitários, velhinhos animados e, pelo
clima, até amantes. Todos tomando algo
em comum: Café.
-
Senhorita Cirlei, me acompanhe, por favor. Você foi aprovada, a chefia ficou
admirada com sua entrevista e com a análise do seu currículo, agora, basta você
provar para o quê veio.
Está
pronta? - Disse o gerente, levando-a até a cozinha. Sua missão será preparar um
Café para a Proprietária desta cafeteria e seu filho. Se eles gostarem do seu
café, o emprego é seu.
-
Mas- (Pensou em perguntar, porém, desistiu da ousadia).
-
Sim, eu sei que você começará apenas como atendente, se for aprovada, mas aqui,
todos nós sabemos fazer café e preparar diversas receitas utilizando café. Só
vendemos aquilo que de fato conhecemos, este é o grande diferencial desta
Cafeteria. Este é o Segredo do nosso sucesso. Não basta precisar de um emprego,
tem que gostar do emprego.
-
Posso começar então? Garanto-te que eles irão provar o melhor e mais saboroso
café da vida deles.
-
Tenho certeza que estão ansiosos para provarem.
Alguns
minutos depois (acho que os mais longos da vida de Cirlei):
-
Cirlei?!
-
Sim. Pode falar - O coração parecia saltar pela boca.
-
Parabéns, os donos ficaram perplexos com o sabor e consistência do café
preparado por você. Sabe o que isto significa não é?
Isto
te torna a mais nova integrante da Cafeteria Souza e Sousa.
-
Obrigada!
Mas,
agora me responda:
-
Qual é o Segredo? Diga-me, por favor! -
Falou o gerente lhe entregando a xícara do café que acabara de tomar.
-Do
café?- Perguntou Cirlei com os olhos arregalados e surpresa.
-
Não!
Eu quero é saber o Segredo desse
sorriso Tão Encantador.
Scheilla Lobato

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